sábado, 2 de abril de 2016

Imagem negativa das religiões cresce no Brasil, analisa pesquisador da UFSCar

A religião parece estar sendo vista no Brasil, em grande medida, não mais como uma aliada na luta por direitos humanos e cidadãos, mas sim, contrariamente, como empecilho a eles. Essa é a análise do professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) André Ricardo de Souza. Ele publicou um artigo sobre o tema na revista Contemporânea.
  
Segundo o pesquisador, no Brasil de hoje há indivíduos, grupos e instituições contribuindo para uma imagem negativa da religião como um todo em diversas vertentes religiosas. Entre o segmento mais afetado por essa interpretação negativa, o pesquisador aponta os evangélicos. “Embora sem exclusividade, atualmente há predominância em determinados indivíduos e grupos evangélicos”. São exemplos os ativistas que exercem importantes cargos parlamentares, como o atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o deputado que presidiu a Comissão de Direitos Humanos daquela casa, o pastor Marco Feliciano.
Isso ocorre, segundo André, porque algumas lideranças religiosas ainda cultivam posturas no limite da beligerância. Alguns grupos ameaçam e chegam a cometer crime de intolerância religiosa. “Esse é o lado negativo de algumas religiões, sobretudo das que não se pautam pela alteridade e respeito ao outro, mas no proselitismo”, explica.
Para ilustrar esses posicionamentos autoritários, André cita a militância política, feita principalmente por parlamentares que representam grupos religiosos. “Tornam-se parlamentares, muitas vezes, devido à projeção obtida por meio da aparição constante em programas de rádio e televisão. Por sua vez, as emissoras religiosas e os horários alugados de emissoras laicas decorrem de intensa arrecadação financeira, fechando assim o ciclo entre religião, economia e política”, analisa.
 
Os agentes que contribuem para um quadro negativo das religiões se caracterizam, segundo André, pelos traços de intolerância, intransigência e homofobia. “A intolerância se refere à rejeição do diferente e sua discriminação por ser considerado pecaminoso ou impuro. Por sua vez, intransigência significa a recusa da busca de diálogo pautado por parâmetros respeitosos e democráticos devido à prevalência do pensamento e do discurso dogmático e autoritário. Já a homofobia diz respeito não só à discriminação, mas também à perseguição, até violenta, de membros da população LGBT”, diferencia André. “Tais posturas, porém, são encontradas também em indivíduos não religiosos”, complementa.
André Ricardo de Souza coordena estudos na área de sociologia da religião. Foto: Comunicação Social/UFSCar

Religião e religiosidade
Para analisar o fenômeno religioso e suas conexões com outras dimensões da vida em sociedade, André desenvolve na UFSCar pesquisa em sociologia da religião. Segundo ele, esses estudos, atualmente, voltam-se não só para a religião enquanto algo que abarca instituições, grupos e doutrinas, mas também para a religiosidade, que é algo próprio do indivíduo, a despeito desses itens. “Há muitas pessoas que declaram ao Censo do IBGE serem ´sem religião´, mas que efetivamente têm religiosidade”.
Um exemplo disso é Adilson Sanches Marques. Ele se considera espiritualista e não tem nenhuma religião específica. “Eu vou com a mesma disposição participar de uma missa em uma igreja católica, tomar um passe e ouvir uma palestra em um centro espírita ou mesmo ir bater um papo com um preto-velho em um terreiro de umbanda. Eu respeito todas as religiões e formas de manifestação do sagrado”, explica Adilson, que é coordenador do Programa Homospiritualis, por meio do qual é mantido o Observatório Social da Liberdade Religiosa em São Carlos.

Apesar das críticas que vêm sofrendo ao longo da história, as religiões podem, segundo André, ajudar na luta pelos direitos humanos e cidadãos. “Elas contribuem na medida em que pregam e efetivamente promovem a reconciliação, a tolerância, o diálogo inter-religioso, o auxílio a pessoas necessitadas e também a proposição e reivindicação de políticas públicas igualitárias e democráticas”, afirma o professor.
É o que pensa também a católica Maria Lúcia Paganelli, que durante sua graduação em História, pesquisou o Padre Teixeira, já um santo do catolicismo popular de São Carlos. Ela acredita que o fenômeno da construção negativa das religiões acontece não só no Brasil, mas no mundo todo, principalmente, por conta do fanatismo religioso que leva à contramão o sentido da religião. “Ligar os povos, unir os irmãos em busca da paz, transformou-se em ódio porque o outro não pensa como eu. O estrangeiro desesperado, que foge de uma situação de guerra, não encontra em novas terras dignidade, mas desconfiança e indiferença por causa da sua religião. Extremismo religioso é sempre a violência contra a paz”, conclui. Adilson também reforça a importância do diálogo inter-religioso e da tolerância. “A principal deveria ser fortalecer o contato com o sagrado e o espiritual e auxiliar na construção de uma cultura de paz. Os diálogos inter-religiosos deveriam focar nesta questão”.

Sociologia da Religião
Para o pesquisador da UFSCar, a compreensão sociológica dos fenômenos religiosos contribui para uma visão objetiva e crítica desse importante traço da vida social que é a religiosidade em face do Estado laico, além de fornecer elementos para o pensamento contrário à intolerância e à discriminação, tanto de pessoas religiosas, quanto das não religiosas.
As pesquisas sobre religião desenvolvidas na UFSCar estão concentradas no Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Política (NEREP), fundado em 2010 e que conta atualmente com 6 pesquisadores doutores, 16 estudantes de pós-graduação e 2 de graduação, sob a coordenação do professor André.
Entre os temas que estão sendo pesquisados pelo NEREP estão o trabalho assistencial feito por espíritas kardecistas, católicos e evangélicos; a expansão de religiões amazônicas no Sudeste; a relação entre sexualidade e prática religiosa. Também há pesquisas que focam o respaldo político para emissoras televisivas ligadas a igrejas; e as implicações do turismo religioso como atividade econômica. “Tais estudos geram conhecimento qualificado sobre o modo como os indivíduos e grupos vivenciam sua religiosidade, inclusive na intersecção com outras dimensões sociais, como a sexualidade, a política e a economia”, afirma André. “A relação entre religião e política é mais evidente, por isso mesmo, mais pesquisada pela sociologia da religião. Já a relação entre religião e economia é menos explorada cientificamente, portanto, havendo no NEREP certo pioneirismo quanto a isso. A religião influencia condutas políticas e também econômicas de indivíduos e grupos, porém, é pautada por essas duas esferas, que são as de maior força no mundo moderno.” 

Mais informações sobre as pesquisas do NEREP estão disponíveis em www.ufscar.br/nerep.