Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de maio de 2021

Feminismo: perversão e subversão – parte IV

O quarto capítulo, "Subversão das identidades" fala sobre a terceira onda feminista.
Diz a autora: "Tenho tentado demonstrar que o movimento feminista não representa nem se interessa pela condição das mulheres, apenas se vale dessa propaganda para alcançar sua real intenção: instaurar uma revolução sexual que subverta os sexos e o sexo. A teoria de gênero estruturada por Judith Butler deixa isso claro. Ela não tem problemas em admitir seu caráter subversivo e isso nos coloca, portanto, outro dilema: será que as mulheres sabem disso?"

Daqui então segue falando da "Ideologia de Gênero". Faço uma pausa aqui para explicar o que ela seria.

O conceito de gênero é presente no movimento feminista desde os anos 1970 e é entendido não como sexo biológico, mas como as construções sociais baseadas nos sexos biológicos. 

Por muito tempo pregou-se que os homens eram superiores às mulheres por características biológicas. Essas características não se referiam apenas à força física, por exemplo, mas também afirmavam que homens eram mais inteligentes e éticos. O conceito de gênero então surgiu para contestar isso.

“Gênero” não é uma palavra mais bonita para se referir ao sexo biológico, mas um termo que vê essa desigualdade na percepção das capacidades de homens e mulheres como algo socialmente construído.

Ao se falar em “questão de gênero”, por exemplo, faz-se referência às atividades culturalmente atribuídas às mulheres – como cuidar da casa e dos filhos – e aos homens – como sustentar financeiramente a família. As teorias feministas explicam que essas ideias são construídas com base nos costumes, não nas capacidades biológicas. Afinal, um homem não é fisicamente incapaz de limpar a casa e nem uma mulher é fisicamente incapaz de trabalhar como engenheira e sustentar financeiramente sua família.

O fato de as expectativas sobre os “papéis” atribuídos a homens e mulheres cisgêneros serem diferentes ao redor do mundo, mudando de cultura para cultura, reforça a teoria feminista de que essas expectativas são construídas socialmente.

Acredita-se que o termo “ideologia de gênero” apareceu pela primeira vez em 1998, em uma nota emitida pela Conferência Episcopal do Peru intitulada “Ideologia de gênero: seus perigos e alcances”. O evento nacional que reúne bispos de todo o país é uma tradição da Igreja Católica no mundo inteiro.

Desde seu surgimento, a expressão “ideologia de gênero” carrega um sentido pejorativo (negativo, ofensivo). Por meio dela, setores mais conservadores da sociedade protestam contra atividades que buscam falar sobre a questão de gênero e assuntos relacionados – como sexualidade – nas escolas. As pessoas que concordam com o sentido negativo empregado no termo “ideologia de gênero” geralmente temem que, ao falar sobre as questões mencionadas, a escola vá contra os valores da família.

Dentre esses valores está o medo de que o debate menospreze crenças familiares e gere intolerância religiosa, tanto por parte dos professores quanto de outros colegas. Outro medo é que a ideologia de gênero induza crianças a serem homossexuais ou transexuais. Geralmente tais grupos também discordam da teoria que aponta gênero como sendo socialmente construído e acreditam que o sexo biológico define tanto o gênero quanto a sexualidade da pessoa. Consequentemente, entende-se que a heterossexualidade é o “natural”.

A autora começa o capítulo citando Judith Butler, que em 2017 veio para o Brasil participar de um evento sobre democracia e não foi muito bem recebida por alguns cidadãos. A filósofa e professora da Universidade da Califórnia Judith Butler é referência nos estudos de gênero e sexualidade e, por isso, cerca de 320 mil pessoas que são contra a chamada ideologia de gênero assinaram uma petição online demonstrando-se desfavoráveis à presença da filósofa no país. Outras centenas de pessoas foram ao aeroporto de Congonhas tanto para hostilizar quando para apoiar a chegada da professora.

O Núcleo de Etnografia Urbana e Audiovisual (NEU) da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP) realizou uma pesquisa com os grupos que estavam presentes no aeroporto. Um dos levantamentos feitos pelos pesquisadores consistia em perguntar às pessoas que carregavam cartazes com frases “não à ideologia de gênero” e afins o que elas queriam dizer. Algumas das respostas foram:

“A ideologia de gênero transmite conceitos totalmente contrários à biologia e à ordem natural das coisas.”

“Eles [defensores da teoria de gênero] querem tirar a autoridade dos pais.”

“Querem acabar com a família tradicional e passar a ideia de que a homossexualidade é cool [descolada], moderna e que a maioria é homossexual. Isso não é verdade.”

Para a coordenadora do NEU, Isabela Oliveira Pereira da Silva, os opositores à Judith Butler compartilham uma “ideia geral de que ideologia de gênero significa ensinar as crianças a ser gays”. Ela ainda destacou que “não existe uma aula desse tipo. Nunca ninguém fez algo parecido com isso”.

A filósofa Judith Butler, após sua visita, escreveu um artigo publicado na Folha de S. Paulo buscando desmentir opiniões populares erradas sobre os estudos da questão de gênero – ou ideologia de gênero, como nomeiam os críticos. Além disso, a pensadora expôs a percepção de que “desde o começo, a oposição à [sua] presença no Brasil esteve envolta em fantasia”.

Quanto à desinformação sobre estudos de gênero – que tendem a levar ao mencionado “pânico moral” –, a Profª Drª Maria Eulina Pessoa de Carvalho, da Universidade Federal da Paraíba (UFPb), busca desmentir algumas dessas visões. A professora ressalta que os estudos sobre a questão de gênero não buscam diminuir ou rechaçar religiões e pessoas religiosas. Ela destaca que ao reconhecer a diversidade de famílias, não se nega a família tradicional e heterossexual. Carvalho ainda cita a Declaração da Diversidade Cultural da UNESCO, de 2001, para reforçar sua visão que dá importâncias às diversidades e liberdades religiosa e cultural.

Quanto à implementação dos estudos sobre gênero nas escolas, a professora do Departamento de Ciências Humanas e Educação (DCHE) da UFSCar, Viviane Melo de Mendonça, afirmou que:

“A educação para a diversidade não é uma doutrinação capaz de converter as pessoas à homossexualidade, como se isso fosse possível. O objetivo é criarmos condições dentro das escolas para que professores e alunos possam aprender e ensinar o convívio com as diferenças que naturalmente existem entre todos.”

Dessa forma, ao tornar a escola um ambiente aberto à reflexão, com respeito às individualidades e à liberdade de expressão, seria construída uma educação “que combata discriminação e preconceitos”, principalmente quanto à violência contra a mulher e LGBTfobia.

A autora, Ana Caroline Campagnolo, esbanja discriminação ao citar até a aparência física de Judith Butler, que ela descreve como "alguém para quem se olha sem conseguir enxergar uma mulher, tampouco um homem completo."

Em seguida, ela cita Monique Witting para reforçar a ideia de um "padrão lésbico" no feminismo. "O único feminismo aceitável é aquele que prevê objetivamente a destruição de qualquer feminino que, para Monique, não passa de um mito historicamente elaborado. O feminismo mais efetivo é o mais radical, é o que chamamos de "terceira onda". Nessa onda, encontramos o lema: o lesbianismo é o único caminho para a liberdade feminista."

Avançamos então para a parte "O padrão gay e Alfred Kinsey", em que cita o autor dos livros "O comportamento sexual do macho humano" e "O comportamento sexual da fêmea humana".
"
Entre as numerosas conclusões que o autor tira de seus formulários e pesquisas, encontra-se uma maioria esmagadora dedicada ao homossexualismo. E impossível não notar que dedica apenas um capítulo do livro às experiências heterossexuais. Afirma que quase 40% dos homens teve, pelo menos, uma experiência homossexual antes da velhice. Exatamente metade dos solteiros com até cinquenta anos endossam essa fileira. Dentre os meninos pré-adolescentes, concluiu que 60% se envolvia em práticas homossexuais. De impressões desses dados, Kinsey construiu uma Escala da Homossexualidade, intentando demolir o padrão binário - acima se apontou que essa pretensão foi repetida por Witting, Butler, etc. - demonstrando que convém classificarmos as relações e não as pessoas como heterossexuais ou homossexuais."

Kinsey afirmava: "Falando em termos biológicos, não existe, na minha opinião, nenhuma relação sexual que eu considere anormal[...] O problema é que a sociedade está condicionada por normas tradicionais para fazer crer que a atividade heterossexual dentro do casamento é a única correta e sã entre as expressões sexuais [...] Levar a cabo qualquer tipo de atividade sexual é libertar-se do condicionamento cultural que a sociedade impõe, e que leva a fazer distinções entre o que é bem ou mal, entre o lícito e o ilícito, entre o normal e o anormal, entre o aceitável e o inaceitável na nossa sociedade".

Ele se dedicou em tirar a homossexualidade do catálogo patológico e afrouxar as leis e punições relacionadas aos crimes sexuais, e leis contra alguns desvios sexuais começaram a ser repensadas.

A autora em seguida passa a discursar sobre o aumento de "movimentos pró-pedofilia" no mundo.
Depois de muito blablabla e contar a história do caso de John Money o quarto capítulo acaba.

sábado, 8 de maio de 2021

Feminismo: perversão e subversão – parte III

O terceiro capítulo, "Reprodução feminina do vício masculino" trata da segunda onda feminista, começando na década de 1960, a segunda fase é contemporânea dos anos rebeldes e da construção do muro de Berlim.
Aqui ela traz um histórico da vida de Margaret Sanger. Enfermeira e educadora, Margaret Sanger abriu, em 1916, a primeira clínica de controle de natalidade nos Estados Unidos, o que era ilegal na época. Sua prisão e condenação levaram a uma decisão judicial segundo a qual os médicos poderiam prescrever contraceptivos para mulheres por razões médicas. Em 1923, Sanger abriu uma nova clínica com equipe médica, que acabou se tornando a Federação de Planejamento Familiar da América (Planned Parenthood).
O lado sombrio são suas opiniões sobre a eugenia, uma crença em melhorar a raça humana por meio de procriação seletiva. As práticas da eugenia visavam pessoas com deficiência, pessoas de cor e pessoas pobres. Sanger morreu em 1966.

A autora segue citando a história de Norma Leah McCorvey Nelson, chamada de Jane Roe na ação judicial movida por suas advogadas pelo direito a um aborto legal.

A autora segue então na parte "Promiscuidade e irresponsabilidade sexual", onde diz: "A segunda onda do movimento só faz mais evidente o papel fundamental da liberação sexual no discurso feminista. A fase é marcada pelo desejo de algumas mulheres ocidentais de reproduzir os defeitos sexuais que sempre foram, no imaginário social, atribuídos aos homens: promiscuidade, desapego e irresponsabilidade com relação aos filhos. Se há um símbolo para a segunda fase do movimento é precisamente a inveja do vício."
Ana Caroline também cita o russo Pitirim Sorokin que publicou um relatório sobre os efeitos do pensamento feminista de liberação sexual. Foi uma fase em que "as feministas condenavam a estrutura social da América como opressiva e lutavam por uma nova visão de mundo, uma que não envolvesse Deus ou regras societárias".
São citadas umas poucas autoras que "defendiam a promiscuidade" e uma vida sexual desregrada, como se isso fosse uma lei máxima do feminismo, e traz alguns dados sobre o número de casais com filhos, de separações e divórcios e do número de mães solo, como se fosse apenas resultado da "revolução sexual". 

Continuando, a autora aborda a obra de Simone de Beauvoir. "Considero que a obra inaugural da Segunda Onda feminista foi o livro da francesa Beauvoir publicado em 1949: O segundo sexo".
"Nenhum destino biológico, físico, econômico, define a figura da fêmea humana que se reveste no seio da sociedade: é a civilização como um todo que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificamos de feminino." (Simone de Beauvoir, O segundo sexo, São Paulo: Difusão Européia do Livro, l970)

Depois, Ana Caroline fala um pouco sobre uma suposta "feminização da sociedade" e mudança da figura masculina, que não é mais tão "viril".

Continuando, vemos uma contradição na parte "A falsa promessa de satisfação", pois mesmo lendo tantas vezes neste livro que o feminismo incentiva "libertinagem sexual", vemos dados de que na verdade os jovens tem feito menos sexo.
"Em um dos estudos, a Dra. Jean Twenge, professora e pesquisadora da San Diego State University, descobriu que os millennials relatam ter menos parceiros sexuais que a Geração X e mesmo os baby boomers na idade deles. E um relatório de 2015 do Center For Disease Control descobriu que menos pessoas de 15 a 19 anos relatam ter experimentado coito se comparadas às gerações anteriores. O declínio é significativo nos dois gêneros, mas particularmente entre os homens [...] Ao mesmo tempo, há muita pressão sobre os jovens de hoje. Entre as expectativas criadas pelo pornô e o escrutínio constante de suas vidas sexuais por pesquisadores e pela mídia, o pessoal de 20 e poucos anos se tornou consciente num mundo de análise constante."

Em seguida, em "Betty Friedan, matrimônio e maternidade", é citado o livro "A mística feminina", publicado por Friedan.
"Um trecho da obra da jornalista Peggy Orenstein resume com objetividade qual a importância da participação da ex-dona-de-casa e ativista feminista Betty Friedan no que foi a Segunda Onda feminista: "Em 1959, o aborto ainda era crime. As mulheres que não eram casadas não podiam obter métodos contraceptivos legalmente, e os farmacêuticos [...] se recusavam a vender camisinhas para homens que eles achavam que fossem solteiros. [...] A introdução da pílula anticoncepcional, em 1960, foi o primeiro tiro da revolução sexual. Três anos depois, veio a publicação da Mística feminina, que lançou a nova onda feminista. Uma década mais tarde, a Suprema Corte garantiu o direito da mulher ao aborto. Como o sexo se viu livre da reprodução, a ideia de "esperar até o casamento" ou mesmo até a vida adulta, ficou cada vez mais obsoleta. Entre 1965 e 1980, a porcentagem de garotas de dezesseis anos que haviam tido relação sexual dobrou."

A autora cita algumas autoras que condenavam e viam como infeliz a tarefa de ser mãe e dona de casa.
Em "A quem importa casar-se?" temos mais desse pensamento. "Famílias bem estruturadas e casamentos afinados têm garantido uma infância mais saudável para os pequenos e uma vida social menos turbulenta para os adultos. Pesquisas têm demonstrado a estrita ligação entre a organicidade familiar e a qualidade de vida. Da mesma forma, a relação entre a criminalidade e o desajuste familiar."

Aqui a autora chega a argumentar como é uma desvantagem para o homem estar numa relação monogâmica. "Mas o sacrifício da exclusividade também é verdade quanto aos homens: eles passam a ter sua vida sexual restrita e ainda pagam por essa condição tendo que sustentar mulher e filhos. À parte o que é moral ou imoral, é fato que o custo de uma relação sexual furtiva é muito menor para um homem do que para uma mulher."
E continua: "Eles poderiam estar saindo todo dia com uma mulher diferente, mas pelo contrário, continuam com a mesma mulher e, incrivelmente, sustentam essa mulher até depois da menopausa ou quando a relação sexual entre os dois não acontece mais. É, portanto, certo que a restrição sexual imposta pelo casamento aos homens e mulheres tem um peso biológico/fisiológico diferente para cada um deles."

A seguir, ela explica a "desvantagem econômica" dos homens. "Se o foco for econômico, contudo, não restam dúvidas de que o homem tem muito mais a perder. Mesmo nas improváveis comunidades onde o feminino é cultuado como superior, as mulheres nunca foram obrigadas a sustentar ou proteger seus parceiros sexuais como os homens têm sido, em milênios de patriarcado, obrigados a fazer com relação às esposas. Nas escassas descrições de povoados matriarcais, as mulheres conseguiam que os homens trabalhassem provendo comida e segurança porque elas eram consideradas superiores e conseguiam coagi-los - ora culturalmente, ora religiosamente. Nas sociedades patriarcais, as mulheres também conseguem que os homens trabalhem muito mais, protejam-nas e sustentem-nas sob o argumento da fragilidade ou inferioridade feminina."

"O que o movimento feminista conseguiu foi liberar os homens do dever social de sustentar as mulheres e retirar delas o direito de não trabalhar, podendo viver do sustento do marido." 
É, no mínimo, difícil se deparar com um raciocínio desses. É completamente ignorado que antigamente os casamentos não aconteciam apenas por amor e escolha do casal. Era arranjado, como uma forma de união de famílias, mantendo a mesma linhagem, mantendo os bens etc. É praticamente um discurso de "o homem tem que sustentar a esposa a vida inteira, ela não tem do que reclamar."

"Quanto mais bem remuneradas as mulheres são, menos vontade elas têm de se casarem. Um levantamento de 1982 sobre 3 mil solteiras descobriu que mulheres ganhando altos salários demonstram o desejo de continuar solteira" quase duas vezes mais do que as mulheres com baixa renda. "Quanto mais independentes as mulheres se tornam, mais desinteressante torna-se para elas o casamento", explicava Charles Westoff, demógrafo de Princeton, em um artigo do Wall Street Journal."

"Resta demonstrado que a implicância feminista com o casamento só começou quando ficou mais fácil arrumar um trabalho remunerado de pouco ou moderado esforço fora de casa. Enquanto houve barbárie, fome e todo tipo de dificuldade, as mulheres queriam casar tão logo pudessem e não costumavam invejar a condição masculina."
O pior é pensar em quantas pessoas acabam defendendo esse pensamento idiota.

Os absurdos seguem na parte em que se fala sobre Divórcio. "Mesmo com abandono, com marido adúltero, com mulher rameira, com agressão ou desamor, indiferença ou violência, o divórcio é um escape, jamais uma saída triunfal. Quem se divorcia por adultério - por não conseguir mais olhar para o traidor - está feliz? Sente-se vitorioso? Considera esse divórcio uma conquista? Duvido muito. A mulher que abandona o marido para fugir com um caminhoneiro deixa-o feliz pelo divórcio? A mulher que precisa se divorciar a fim de parar de apanhar do brutamontes com quem se casou acha isso a maior conquista da sua vida? Não."

E conclui com este parágrafo: "O pesquisador russo Pitirim Sorokin também apontava para dados nesse sentido. Para ele, a crescente desintegração dos casamentos, a desistência fácil de qualquer desafio matrimonial, é resultado de uma cultura de jovens e adultos que exigem um alto padrão de vida para se sentirem satisfeitos. Ele soma "ao egoísmo inflado, incapaz de suportar os defeitos do companheiro, a uma carência de genuíno amor que tudo dá e perdoa".

O capítulo termina com mais falas sobre como o feminismo é destruidor da família, do capitalismo e da heterossexualidade. É um pouco entediante.

Feminismo: perversão e subversão – parte II

O segundo capítulo, "Inserção da mulher no universo masculino" fala sobre a Primeira Onda feminista, marcada pelo ano de 1848. O parlamentar liberal e escritor Stuart Mill assim resumiu grande parte das querelas das mulheres de sua época: "A reivindicação das mulheres em serem uniformemente educadas como os homens, nos mesmos ramos de conhecimentos, está crescendo intensamente e com grande perspectiva de sucesso, enquanto a exigência por sua aceitação em profissões e ocupações até aqui negadas a elas fica mais urgente a cada ano [ ... ] embora não existam neste país [Inglaterra], como existem nos Estados Unidos, convenções periódicas e um partido organizado para promover os direitos das mulheres, existem várias sociedades ativas organizadas e gerenciadas por mulheres, a fim de obter o direito ao voto. O mesmo está acontecendo na França, Itália, Suíça e Rússia."

Durante a primeira onda, as mulheres tiveram o direito ao voto reconhecido e começaram a atuar gradualmente em empregos fora do lar. Em "Dinheiro, propriedade e herança", Ana Caroline defende como os homens tinham que sustentar as mulheres e a família com o que recebiam de herança, pois os bens e herança eram passados apenas aos filhos homens. 
"É preciso reconhecer, contudo, que mesmo sem acesso direto à herança, as mulheres eram assistidas por algum homem da família que dispusesse desses bens. Com esses bens, sustentavam eles mulheres e filhos; então, de alguma forma, pode-se dizer que havia sempre mulheres vivendo às custas dos homens."

A seguir, na parte "A mulher nos universos masculinos de exploração (mercado de trabalho) e repressão (poder estatal)", Ana disserta que as mulheres foram inseridas no mercado de trabalho por uma transformação social sem premeditação, e não por uma luta organizada de um movimento. Nos empregos pesados e perigosos, as mulheres foram introduzidas pela fome, pela necessidade ou pela guerra.
Isso é novidade para alguém? O trabalho sempre foi uma necessidade social, é mais que natural que mulheres também passassem a ocupar estes espaços, e a reivindicarem condições justas e menos precárias no ambiente de trabalho.

Passamos para a parte "Inauguração do Women's Movement nos EUA (1848)", onde a autora fala sobre a questão do sufrágio e as lutas por igualdade civil. A partir da década de 1830, levantaram-se vários movimentos reformistas e antiescravagistas que acenderam o interesse e a participação política de muitas mulheres na Europa e nas Américas.
Ana aqui relata que uma reunião pelos direitos que aconteceu em 19 e 20 de julho de 1848, em Seneca Falis, Nova York, nos Estados Unidos foi em uma igreja, pois outros locais seriam pouco receptivos. 
"E se, hoje, os movimentos feministas se ouriçam em achincalhar o cristianismo, certamente não o faziam quando viam nele o único terreno possível para as suas queixas. Em 1890, o movimento de mulheres chegou a integrar oficialmente a Associação de Temperança das Mulheres Cristãs (WCTU)."

Em "Direito ao voto" vemos que a maioria das pesquisadoras do assunto apontam para os acontecimentos de meados do séc. XIX como fundadores do feminismo, começando pela Convenção de Mulheres de 1848. "Os historiadores geralmente apontam essa convenção do século XIX como a semente para o movimento feminista. Ela é considerada o ponto de partida da primeira onda do feminismo, também conhecida como movimento sufragista ou campanha para obter o direito ao voto das mulheres."
Aqui a autora cita que existia um grande movimento de mulheres contra o sufrágio e que o direito ao voto foi mais uma concessão que uma conquista - e uma concessão que só pôde acontecer porque o voto feminino se tornara um assunto irrelevante para a política. 
"Em seu livro A Dangerous Class, Betty Stevens conta a história de vendedores de cerveja que temiam que as mulheres votassem pela proibição do álcool. Eles foram e avisaram os maridos das sufragistas para que tirassem suas esposas da campanha antes que os maridos perdessem seus empregos.", vejam só.
Ana Caroline chega a citar que em todo o Ocidente, o direito à cidadania plena através do voto estava interligado ao dever de servir ao Estado estando à disposição do exército. "Os homens sempre estiveram facilmente adaptados à ideia de servir ao país durante as guerras, mas não se pode dizer o mesmo das mulheres." Será mesmo que todo homem sempre esteve facilmente adaptado a servir ao país durante as guerras? Ou ia por imposição, pressão, medo de retaliações, vergonha das outras pessoas?
Por este raciocínio, a autora conclui que o direito ao voto não foi uma conquista ou direito das mulheres, mas um privilégio. "Ao receberem o direito ao voto sem a obrigação de alistamento, as mulheres não conquistaram direitos iguais, mas sim "direitos desiguais", o que também podemos chamar de "privilégio"."
Ana Caroline é um verdadeiro gênio. (ironia)

Passamos para "Kollontai e o feminismo socialista", onde a autora mostra uma relação entre conceitos socialistas e o feminismo, citando Alexandra Kollontai (1872-1952), uma bolchevique que participou diretamente da Revolução Russa em 1917 e era próxima do líder da revolução, Lênin. Em seu livro "A família e o comunismo", ela demonstrou estar convencida de que as mulheres só estariam realmente livres dos maridos quando passassem a depender inteiramente do Estado.

Em "Trabalhar: privilégio ou necessidade?" há uma citação assim: "Partindo da premissa de que o trabalho nunca foi considerado um direito ou privilégio, convém investigar como homens e mulheres estavam inseridos no mundo do trabalho, ou seja, no mundo do sofrimento. No início da civilização humana, a fraqueza feminina era ainda mais desesperadora do que é hoje. Praticamente sem nenhuma tecnologia, munidos apenas de pedaços de pau e pedras afiadas, os seres humanos precisavam comer, aquecer-se e sobreviver aos ataques de feras selvagens. Os homens dominavam as mulheres porque sempre foram fisicamente mais fortes e ágeis. Valendo-se de sua condição superior, os homens poderiam atirar crianças e mulheres para as garras dos carnívoros famintos. Ou, se quisessem preservar a espécie humana, atirar somente as mulheres que já amamentaram algumas crias e podiam ser dispensadas. Pelo contrário, os homens enfrentavam as feras e mantinham as fêmeas seguras em alguma caverna com fogo e alimento."
BRAVOOOOOO, BRAVOOOO! 

Nós devemos tudo as homens, afinal, como Ana Caroline diz neste trecho, "se [as mulheres] viviam um pouco além da expectativa é porque eram ativamente protegidas e porque os homens trabalhavam mais e em lugar delas."
Ela diz até mesmo que as escravas  "No geral, eram menos castigadas e menos exploradas justamente por serem mulheres."
É hilário este trecho onde a autora cita a Idade Média em que os homens "Quando voltavam vivos das batalhas, tinham tempo para declamar poemas que as virtudes femininas inspiravam."

Passando para a parte "Desigualdade no mercado de trabalho" e em "Reclamando de barriga cheia", a autora resumidamente argumenta que o movimento feminista se espalha e conquista integrantes apenas através de discursos cheios de reclamação, para fazerem as mulheres terem pena de si mesmas...
"As mulheres alcançaram em pouquíssimas décadas as facilidades trabalhistas que os homens levaram séculos ou milênios para conquistar no Ocidente. Quando as mulheres chegaram ao tão sonhado "mercado de trabalho", ele já era um mercado de trabalho e não mais de escravos. Os primeiros empregos que as mulheres dos anos 1920 conseguiram eram infinitamente mais dignos e seguros do que as atividades a que a maioria dos homens estiveram sujeitos por milênios. Enquanto os homens trabalhavam como cavalos por mínimas condições de sobrevivência deles e de suas famílias, nenhum coletivo de mulheres desejava tomar-lhes o lugar. Os homens melhoraram as condições de trabalho de tal maneira que as mulheres começaram a querer fazer parte dele." Novamente, uma salva de palmas para os homens heróis, guerreiros.

E continua, "Em 1950, 80% dos homens fazia parte da população economicamente ativa. Esse número caiu para 67% na última década. Além disso, com menos esforço e um histórico menos aguerrido, as mulheres alcançaram rapidamente todas as vantagens trabalhistas pelas quais os homens lutaram."

Vemos mais absurdos neste trecho: "Ou seja, existe uma explicação para a disparidade na presença de homens e mulheres entre os altos cargos. Estatisticamente, a maioria das mulheres não leva a vida exigida para se chegar aos cargos mais bem remunerados ou de maior influência. Além disso, as mulheres costumam dedicar menos tempo que os homens para atividades produtivas e remuneradas, e muitas vezes o fazem por opção."

"O bem-estar da família e a complementaridade de papéis", trata basicamente de relacionamento e pressupõe que "em um casamento harmônico e feliz, deixar o lar para ingressar no mundo profissional pode não ser a escolha mais inteligente".
A autora cita um artigo do diretor-executivo da revista Forbes, Michael Noer, sobre os riscos de entrar em um casamento com uma mulher carreirista. Noer admitia que mães e esposas que trabalham podem ser muito felizes no casamento, mas ressaltava que, segundo pesquisas, elas têm menos chance de que isso aconteça do que mulheres que não trabalham fora de casa. Isso, consequentemente, significa que a chance de divórcio aumenta se você for um homem casado com alguma dessas mulheres.
"Ele escreveu: Uma palavra de conselho. Casem-se com mulheres bonitas ou feias. Baixas ou altas. Loiras ou morenas. Apenas, faça o que fizer, não se case com uma mulher carreirista [ ... ] embora todos saibam que o casamento pode ser estressante, estudos recentes descobriram que mulheres profissionais são mais propensas a se divorciar, mais propensas a trair, menos propensas a ter filhos e, se têm filhos, são mais propensas a ficarem infelizes com isso. Um estudo recente no Social Forces, uma revista de pesquisa, descobriu que as mulheres - mesmo aquelas com uma perspectiva "feminista" - são mais felizes quando o marido é o principal provedor da família."
Acredito que devemos acrescentar então para os homens não se casarem também com atletas, pois passarão muitas horas treinando, viajando para campeonatos etc. Não se casem com mulheres acadêmicas, pois ficarão muitas horas estudando, lendo, escrevendo suas teses, assistindo e dando aulas e tudo o mais, enfim, só se case com uma mulher que se dedique apenas ao casamento e ao lar, pelo bem da felicidade de vocês. Acho que a autora, Ana Caroline Campagnolo concordará com esse acréscimo.
"Noer citou estatísticas preocupantes: as casas dos casais onde ambos são carreiristas são mais sujas (Instituto de Pesquisa Social), as mulheres carreiristas tendem a ficar infelizes se precisarem deixar tudo para cuidar dos filhos Journal of Marriage and Family, 2003) ou mesmo se ganharem salários maiores que o do cônjuge (Social Force, 2006). Os maridos dessas mulheres, por sua vez, também ficam mais infelizes com a inferioridade de seus salários Journal of Marriage and Family, 2001) e ficam mais propensos a adoecer (American Journal of Sociology)."

Em seguida, na parte "Casa privada versus casa pública", a autora cita Chesterton para mostrar a importância da dedicação à vida no lar em família. "Quando as pessoas começam a falar dessa função doméstica não mais como algo somente difícil, mas atribuem-lhe os rótulos "trivial" e "monótona", então eu simplesmente desisto de discutir. Pois por mais que empenhe toda energia da imaginação, não consigo entender [...] como é que ensinar a regra de três para as crianças dos outros pode ser uma grande e ampla profissão e ensinar suas próprias crianças a respeito do universo [sobre tudo que existe], uma profissão restrita? Como é que ser a mesma coisa [professora] para todos pode ser grandioso, e ser tudo [mãe, professora, cozinheira, enfermeira, etc.] para alguém, algo limitado? Não pode ser. A função de uma mulher é trabalhosa, mas porque tem uma amplitude colossal e não porque tenha um alcance diminuto." (G.K. Chesrerton, O que há de errado com o mundo. Campinas: Ecclesiae, 2013)

Temos mais um parágrafo chocante com o trecho: "Julgando a superioridade física masculina atestada em milênios, é de admirar que os homens não tenham feito na vida real o que as lendárias amazonas só puderam fazer na mitologia. Eles poderiam ter escravizado as mulheres nos trabalhos mais indignos e vazios de sentido, poderiam ter enchido o mundo de fábricas análogas às de alfinete. Do contrário, historicamente, observando a fraqueza e as difi­culdadcs femininas, os homens buscaram abrandar a angústia das mulheres. Percebendo que as mulheres tinham um domínio (principalmente físico) limitado sobre a vastidão do mundo, os homens lhes criaram um mundo menor onde tudo está ao seu alcance e a sua disposição: o lar. Não se exige grande força física nem longas corridas para trabalhar em casa. Os filhos exigem muito, mas geralmente não são mais perigosos do que uma mina de carvão ou uma fábrica de pneus. O lar sempre foi o lugar onde as mulheres imperam, mandam e controlam com facilidade e mais destreza do que os homens."
QUE LINDOOOOOOOOOOOO!!
Me pergunto então porque a autora não segue o que é defendido aqui, já que ela é deputada estadual de Santa Catarina. É casada e tem uma filha, não é hora então de se dedicar totalmente a isso? Ou vai disputar a reeleição?

A autora conclui aqui o capítulo, confira um trecho: "Diferentemente do que se supõe, demonstrei que as mulheres sempre trabalharam menos do que os homens e mesmo assim conseguiram sobreviver e prosperar. Demonstrei que as mulheres, ao longo da história, receberam dos homens casa, comida, alimentação e inúmeros favores. Amiúde, mecanismos sociais foram criados para fazer com que os homens sustentassem e protegessem as mulheres e o fizessem com senso de dever. Apre­sentei dados que revelam que até mesmo as conquistas políticas foram concessões masculinas, especialmente no tocante ao sufrágio universal." 
Mais blablabla.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Feminismo: perversão e subversão – Ana Caroline Campagnolo

Neste livro, Ana Caroline Campagnolo traz um histórico e informações sobre o movimento feminista, resultado de sua pesquisa no assunto, entretanto, apesar da densidade que o tema pede, a leitura é clara e objetiva. A autora tem uma abordagem ofensiva, no sentido de atacar o movimento, mas com pouco esforço é possível perceber que, as informações trazidas para refutar e condenar o feminismo são fracas e nada convincentes.

Campagnolo faz a linha do tempo do feminismo mostrando as diferentes ondas do movimento em ordem cronológica. No início do movimento, o protofeminismo destacando Mary Wollstonecraft com o documento fundador do feminismo no ano de 1792 com a obra “Reinvindicação dos direitos das mulheres”.  Teóricos do assunto tendem a colocá-la como divisora de águas entre as feministas e as protofeministas e, por isso, foi escolhida como marco inicial dessa primeira etapa histórica indispensável para compreender a trajetória desse movimento.
A autora traz na parte "
Contestação moral-religiosa e educação pública: germes do feminismo" que a preocupação principal de Mary dizia respeito à restrição da educação formal feminina. O raciocínio da autora é de que "Diferentemente destas (as feministas), aquela (Mary Wollstonecraft) não desprezava - ao menos teoricamente - as virtudes cristãs da castidade, da modéstia e da temperança", como que dizendo que no início, esta "primeira autora feminista" não defendia a libertinagem e a promiscuidade, como muitos acreditam que o feminismo faz.

Em seguida, em "O perfil das mulheres do Setecentos: privilegiadas, não oprimidas", ela traz alguns escritos que defendem que as mulheres sempre foram poupadas e privilegiadas de viverem, trabalharem em ambientes hostis, violentos, brutos. "Todos os períodos históricos narrados demonstram a tese do autor de que, quando existe um equilíbrio demográfico ou uma proporção normal, a numérica existência feminina é "resultado de os homens proporcionarem às mulheres as amenidades da vida civilizada". Até porque, em condições mais bárbaras, as mulheres acabam morrendo primeiro. Se elas vivem mais hoje é porque muita facilidade foi erguida sobre os ombros de escavadores, mineradores e construtores homens."
Como se o fato de os homens serem maioria nessas funções fosse apenas pelo motivo de privilegiar e proteger as mulheres. Sério, é esse o nível de raciocínio neste livro.

Ainda nesta parte, a autora cita a "queixa" de Mary Wotlstonecraft de que a vida das mulheres (aqui nobres e burguesas) tinham uma vida muito fácil, monótona, entediante. "Muitas mulheres proletárias, que trabalham dura e incansavelmente, desejariam ter a vida da mulher burguesa, sustentada pelo marido e cercada de confortos e poucas responsabilidades. Já as mulheres burguesas tiram de algum lugar a sensação de que deveriam fazer de suas vidas algo mais produtivo, ingressando no mercado de trabalho - obviamente, não no mesmo trabalho das mulheres proletárias." 
Ela conclui dizendo que para Mary, "a questão central é: os homens estão mimando tanto essas mulheres que elas não têm interesse nenhum pelos filósofos iluministas ou pelo exercício da razão, tornaram-se fúteis e até amantes andam por arrumar. Basicamente, o grito da suposta primeira feminista foi: "É muita moleza pra essas dondocas!", querendo dizer que a vida dessas mulheres casadas (nobres e burguesas, vamos lembrar) era uma maravilha, pois seus maridos davam do bom e do melhor.

A seguir, em "Combate à libertinagem sexual e elogio à modéstia", apenas se trata de Mary ser uma defensora do casamento monogâmico como o mais vantajoso para a situação da mulher como mãe e companheira de um homem. Ainda insistindo no discurso de que as feministas incentivam a vida sexual desregrada e relacionam os conceitos de liberdade e independência com a promiscuidade e a satisfação dos instintos.

Em "O papel essencial da mulher é ser mãe", Ana mostra que "Wollstonecraft jamais negou o dever feminino para com a prole (nem o dever masculino, com a ressalva de que diferiam em forma e função)."
"
Mary Wollstonecraft, por sua vez, não percebe os afazeres domésticos como sinal de inferioridade nem considera a esposa e mãe inferior à mulher intelectual; pelo contrário, condena as mulheres que cumprem seus deveres naturais com desleixo."
Essa parte termina com a autora dizendo que, o
 que quase na totalidade das casos conduziu as feministas mais afamadas a perderem todas as esperanças acerca da família foi a experiência pontual de suas casas esvaziadas de amor e entupidas de violência, "como é o caso bem conhecido de Virgínia Woolf, Betty Friedan e Gloria Steinem." 

A seguir, a parte "A educação pública como instrumento de transformação social" mostra que Wollstonecraft defendia a "escolarização universal" e a escola como meio de reengenharia social. "Acreditavam que a ciência, a liberdade política e a democratização do ensino poderiam resolver os problemas sociais e encaminhar a humanidade para uma era harmônica e mais feliz."
Mas, para Ana Caroline, p
elo contrário, quanto mais se expandiu o acesso à instrução formal, mais as mulheres (e homens) se tornaram libertinas. imorais, pouco virtuosos e abortistas. "Esse conjunto de imoralidades que a mulher de hoje coleciona é exatamente o oposto do que Wollstonecraft defendia e esperava como consequência da universalização do ensino."

A melhor parte é em "A fraude da educação mista igualitária", onde Ana Caroline diz que "a educação pública e mista como a conhecemos jamais cumpriu suas promessas de progresso e igualdade. Estudar mais ou estudar com os meninos não mudou a essência feminina quanto às preferências de trabalho e pesquisa." 
Como argumentos, Ana Caroline começa na Antiguidade. "A instrução pública obrigatória era realidade em Esparta, por exemplo, e lá a finalidade era militar e o método, violento. Frequentar uma escola pode ser muito atrativo às meninas de hoje, mas não o era quando os mestres podiam punir fisicamente os alunos, humilhá-los com naturalidade ou incluir "fome e frio no currículo. Nesses tempos de sombria educação, as meninas eram, na pior das hipóteses, privilegiadas e, na melhor delas, totalmente poupadas." 
Ela continua dizendo: "Com a inserção feminina nos centros educacionais foi que os ambientes se tornaram mais amenos. Justamente por causa das moças é que as coisas tendem a se tornar mais tranquilas: para não causar muitos traumas. Essa é uma condição de indiscutível privilégio."
Veja, de novo, o nível de raciocício de Ana Caroline: "Outrols exemplos deixam o cenário mais claro: durante muito tempo, a passagem das moças pelos cursos de ciências e matemática foi facilitada na América do Norte. Quando, finalmente, no início do século XX, os centros de ensino resolveram igualar o grau de dificuldade independente do sexo - igualdade é isso, não é? - as moças começaram a abandonar esses cursos. Uma tabela comparativa apresentada pelos pesquisadores Tyack e Hansot em uma investigação sobre a educação nas escolas públicas americanas demonstraram que, em 1916, os homens voltaram a ser maioria na área em questão: eles eram 93% dos formados em cursos científicos (p.ex.: exatas). Em 1928, menos de 1% das mulheres escolhia esse mesmo curso."
Como se o motivo desses números fosse APENAS de que as mulheres acham essas áreas difíceis e não se interessam! Sério?!

"As mulheres escolhem humanidades e ciências sociais porque essas áreas são, em princípio, consideradas fáceis. Conforme a dificuldade aumenta, com freqüência elas desistem, se não durante o curso, mais tarde ao tentar prosseguir na vida acadêmica. As restantes tendem a entrar em guetos femininos, como faculdades comunitárias, estudos de gênero e outros departamentos em que as mulheres são maioria entre os funcionários e os alunos [ ... ]. A incapacidade ou a falta de disposição das mulheres de competir com os homens pode explicar por que, mesmo nas cinco faculdades norte americanas totalmente femininas, a maioria dos professores é do sexo masculino."

O blábláblá continua: "é preciso reconhecer os fatos que sinalizam as diferenças de tendência e preferência entre homens e mulheres também no campo educacional. E igualmente indispensável admitir que as meninas jamais foram submetidas à mesma rigidez educacional dos rapazes especificamente porque eram protegidas e privilegiadas e não "oprimidas"."
E Ana Caroline termina esta parte com alguns dados defendendo escolas single-sex, exclusivas para meninos ou exclusivas para meninas, ou que tem turmas separadas por sexo. E ela ainda induz que as mulheres se vitimizam quando são minoria em algum curso ou área do conhecimento e se vangloriam quando estão com alguma vantagem. 

O primeiro capítulo continua com a parte "Os interesses e o comportamento distinto dos sexos são consequências da educação: raízes da ideologia de gênero". Em resumo, aqui Ana Caroline quer mostrar as tendências naturais das mulheres.
"Mary não suportava a futilidade feminina. Ela acreditava que se houvesse drástica mudança no que se exige das mulheres no plano educacional, então, poderíamos saber com clareza quais são as tendências naturais da mulher e quais lhes são impostas.
Essa hipótese foi desbancada. Com o advento do séc. XXI, o que podemos notar é que, depois de tantas revoluções sociais, depois de tantos direitos conquistados e de tanto pareamento educacional e legal, as mulheres continuam investindo no que Mary chamava de "perda de tempo".
Aqui, Ana Caroline traz dados sobre o quanto as mulheres gastam com produtos de beleza, cabelereiro roupas, calçados etc, o quanto o número de cirurgias plásticas cresceu muito nos últimos anos, como se o motivo fosse APENAS o gosto das mulheres por essas coisas.
É completamente ignorado o número de propagandas, campanhas publicitárias que levam em conta um padrão estético inatingível e a pressão para as mulheres estarem dentro de uma imagem exigida pela sociedade, que deve estar sempre arrumada, com determinadas roupas, maquiagem, unhas feitas, um corpo "em forma".

Aqui se encerra o primeiro capítulo. Depois continuo o post comentando o conteúdo dos próximos capítulos.


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A Trade Like Any Other - Karin van Nieuwkerk

Este livro contém uma dissertação de doutorado que explora o status social que os dançarinos ocupam na sociedade egípcia, juntamente com as razões por trás desse status. Embora haja informações sobre o Egito moderno, a maior parte do livro cobre a perspectiva histórica. Foi publicado em 1994.

Este livro procura responder à questão de por que as mulheres que cantam e dançam profissionalmente no Egito têm um status tão baixo na sociedade egípcia. Consiste em uma pesquisa de campo conduzida pela autora no Egito, incluindo muitas entrevistas com artistas, bem como outros locais em outras esferas da vida.

Para aqueles de nós que vivemos na sociedade ocidental, onde as celebridades são respeitadas e adoradas em nossas culturas há várias décadas, pode ser difícil entender a ideia de que cantores e artistas de dança oriental são vistos como de baixo status na casa da dança no Egito. Os filmes egípcios que tornaram famosas dançarinas como Tahia Carioca e Samia Gamal, combinados com a fama de estrelas mais recentes como Nagwa Fouad e Soheir Zaki, podem nos levar a acreditar que as artistas do Egito são tão respeitadas lá quanto uma estrela de cinema famosa. Mas esse não é o caso, e A Trade Like Any Other explora por quê.

O livro abre com uma história das profissões de entretenimento no Egito desde o século 19 até os tempos modernos, particularmente focada na profissão de raqissa (dançarina). O foco está no século 20 e gira em torno das Awalim do Cairo. Ele traça a evolução da dança desde os artistas em casamentos e moulids (festivais do dia dos santos) até o surgimento da indústria de nightclubs. E descreve como a transição de apresentações para egípcios locais em casamentos e festivais para apresentações para estranhos em boates mudou o caráter da dança.

Depois de estabelecer essa base histórica, o livro aprofunda o status dos dançarinos na sociedade atual.

As entrevistas que a escritora realiza com dançarinas e outras pessoas dão um lado muito humano à subcultura dos artistas, compartilhando histórias de pessoas da vida real e sua relação com a sociedade.
Karin entrevistou pessoas diferentes o suficiente para fornecer várias perspectivas e equilibrar o preconceito que qualquer um dos entrevistados poderia trazer à tona. 

Sugiro que leia também o artigo do mesmo autor "An hour for God and an hour for the heart:

Islam, gender and female entertainment in Egypt". Ele oferece uma introdução a algumas das informações que são exploradas no livro com mais profundidade.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Sonhos de Transgressão - Minha Vida de Menina num Harém | Fátima Mernissi

"Sonhos de Transgressão - Minha Vida de Menina num Harém", romance da socióloga marroquina Fatima Mernissi, engana. Quem pensa que vai encontrar nele histórias de luxúria, protagonizadas por centenas de mulheres, dezenas de eunucos e alguns homens, vai se decepcionar.
O harém a que todo imaginário ocidental logo se refere existiu até 1909. O harém descrito por Mernissi em seu livro só tem em comum com esse outro o fato de as mulheres não poderem sair dele sem a permissão dos homens. Era na verdade uma grande casa onde moravam juntas as famílias dos irmãos de uma mesma família. Não existe privacidade e as regras, do horário das refeições ao "toque de recolher", são severas. Fatina é socióloga e estudiosa da cultura islâmica. Seu livro mais conhecido, "O Véu e a Elite Masculina", de 1987, foi proibido em diversos países árabes. "Sonhos de Transgressão" é uma ficção autobiográfica. Fatima Mernissi nasceu em 1940 em um harém em Fez. "O primeiro capítulo é real, mas no resto do livro uso acontecimentos de minha vida para bordar e comunicar algo sobre as fronteiras. O herói do livro não sou eu, minha mãe ou qualquer outra. É a 'hudud' ", disse Mernissi em entrevista à Folha, por telefone de Rabat, no Marrocos, onde vive. "Hudud" são as fronteiras sagradas, o que separa aquilo que é permitido do que é proibido. "Ser muçulmano era respeitar a hudud. E, para uma criança, respeitar a hudud significava obedecer", escreve Mernissi.

É do ponto de vista da menina Fatima que a história é contada. Ela ouve sua mãe, uma mulher analfabeta, reclamar da falta de liberdade das mulheres. Ouve sua prima progressista Chama fazer discursos feministas. Mas ouve também sua avó e sua tia defenderem as tradições muçulmanas.
Todas vivem na mesma casa, dividem o mesmo terraço onde bordam, contam histórias, passam máscaras no rosto e hena no cabelo. "Sonhos de Transgressão" é um livro feminino e feminista. "Sou universalista, gosto de ter leitores dos dois sexos e não escrevo para mulheres. Uma vez, há uns sete anos, uma editora italiana me pediu para publicar um livro numa coleção. Quando me mandaram um exemplar para ver, vinha escrito 'Para a Mulher'. Decidi não publicar ali, porque para mim isso é um harém. Mulheres falando com mulheres é o harém de novo", disse Mernissi. A autora tampouco quer ser identificada como feminista. "Não acredito nas feministas ocidentais, na estratégia ou filosofia antimacho, porque não acredito que uma mulher que esteja sofrendo por fronteiras deva ser proibida de se mover livremente. A liberação do ponto de vista do harém é uma sociedade livre onde a competição é possível para todos e não existe nenhuma exclusão. Não se trata de uma guerra entre homens e mulheres. Acho isso muito arcaico e primitivo", afirmou. "Uma das coisas boas que tive na minha infância é que o feminismo não me foi ensinado pelo Ocidente, mas por essas mulheres analfabetas que tinham uma ideia clara de que o harém não era bom para os seus interesses e o rejeitavam tentando usar o que tinham para mudar a situação. E o que elas tinham era a capacidade de se expressar, fazer teatro, bordados."

A autora, que tem diplomas universitários de Marrocos, França e Estados Unidos, defende a intuição e outras características femininas para se fazer "a revolução". "A ideia de que somente a educação leva a mulher a buscar a liberação é um dos estereótipos que eu queria combater no livro. Hoje, em muitos países árabes, dizem que não pode existir democracia porque as pessoas são analfabetas. Quis mostrar no livro que ter ou não acesso à educação não tem nada a ver com reconhecer os mecanismos de opressão e as chances de liberação. Você entende o que digo? Tenho certeza que no Brasil vocês têm o mesmo problema com as elites. Elas decidem que porque têm conhecimentos especiais vão ditar aos outros o que devem fazer para se libertar. Assim, você tem essa ditadura que se disfarça em revolução."
Mernissi, de fato, vai de encontro às feministas mais ferrenhas ao exaltar a fragilidade e a feminilidade em todo o livro. "O que eu queria, não importa se o leitor for homem ou mulher, era que a pessoa entrasse em contato com sua fragilidade interior. E percebesse que não importa o quão ruim uma situação possa ser, porque sempre é possível sonhar e imaginar um outro mundo. Estar numa posição de fragilidade não significa que você não possa lutar. Sou uma pessoa muito otimista."

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Ô Nuit, Ô Mes Yeux: Era uma vez o leste perdido

Com "Ó Noite, Ó Meus Olhos" (Ô Nuit, Ô Mes Yeux), este sublime romance ilustrado em francês, Lamia Ziadé nos fala de uma época que muitos podem não conhecer.
Ô nuit, ô mes yeux : Le Caire / Beyrouth / Damas / Jérusalem"  par Lamia Ziadé (Editions P.O.L, 576 pages, octobre 2015) 39,90 €


O mundo árabe naquela época girava em torno de estrelas femininas livres e reverenciadas de Marrakech a Bagdá. O Cairo, epicentro desta época de ouro, acolheu intelectuais, princesas, banqueiros, espiões, artistas, poetas, dançarinos de todas as origens que emocionaram a capital cosmopolita, a cidade de todas as possibilidades.

Originalmente, Lamia Ziadé queria dedicar um livro a Asmahan, um ícone absoluto, escandaloso e muito talentoso, que morreu aos 27 anos em um acidente de assassinato. Então, pesquisando o destino trágico de Amal Al-Atrache, ela se deparou com o destino de dezenas de outras mulheres, cada uma mais extraordinária.

Incapaz de parar ao longo do caminho, o livro traça o Oriente Médio entre as décadas de 1920 e 1970. "Se você contar a Asmahan, terá que contar tudo: todas as garotas da época, cantoras, dançarinas, atrizes, donas de cabarés, políticos, cantoras. E pouco a pouco, acabamos contando a história do pan-arabismo."

Lamia Ziadé nos dá uma jóia, um afresco fervilhante, onde seus deliciosos desenhos ilustram textos, sequências de vida dessas lendas, que fizeram milhões de corações árabes baterem. Ao folhear as páginas, suspeitamos que o trabalho de documentação era considerável e, portanto, ficamos surpresos ao descobrir histórias sobre aquelas que pensávamos que sabíamos tudo.

No fundo, a grande história se desenrola: a luta contra o protetorado francês no Levante após o colapso do Império Otomano, o Egito do rei Farouk, a revolução de 1952, as guerras árabe-israelenses e a nacionalização dos Canal de Suez. O orgulho dos árabes foi então encarnado no carisma de Nasser e seu colega feminino, Oum Kalthoum, que foi apelidado de Estrela do Oriente.
image4
Entre os dois, uma profunda amizade tingida com respeito mútuo emergirá; os raïs até fazem o impossível: convencer a diva a cantar Abdel Wahab, sua maior rival por tantos anos. O sonho de um povo inteiro se torna realidade, a “quarta pirâmide” e o “último faraó” se uniram em torno do que continua sendo uma das canções mais bonitas da diva: Enta Omri.

Mohamed Abdel Wahab vai revolucionar a música árabe, abrindo-a para múltiplas influências: jazz, tango, valsa, rumba. Originalmente de um ambiente modesto e conservador, como Oum Kalthoum, lutará toda a sua vida para reconhecer o estatuto de artista na sociedade. Na época, não foi fácil, mesmo depois de mergulhar no trabalho de Lamia Ziadé, ficamos surpresos ao ver a liberdade moral que reinava ali.
Oum Kalthoum conquistou sua autoridade no meio. Escolhia e dirigia sua banda, dirigia as rádios onde cantava, mudava as letras das músicas se quisesse. Tudo para sua satisfação pessoal.

"Senti a necessidade pessoal de compartilhar outro mundo árabe que não seja o que nos é mostrado o tempo todo no Ocidente, composto de terrorismo, jihadismo, mulheres com véu, considerações geopolíticas, guerras. (...) É importante lembrar que este mundo existia, que havia sido um período de abertura, tolerância e criação artística. Ela pode voltar um dia, mesmo que ele esteja muito otimista em pensar assim", disse Lamia Ziadé.


Hoje, os layali de Fayrouz ainda ressoam nos táxis de Beirute e nos de Oum Kalthoum, nos becos do Cairo. O Tarab, esse êxtase musical que abraça seu coração, o eleva e o faz girar, está sempre presente quando você ouve suas vozes. A paixão e o glamour desertaram, fazendo-nos até duvidar que esse tempo realmente existisse. Felizmente, porém, a nostalgia encantadora que emerge de "Ô Nuit, Ô Mes Yeux" está lá para nos lembrar.

image3

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Ma liberté de danser - Dina Talaat


DINA! A última bailarina. Dina. Seu primeiro nome é suficiente para introduzi-la. Há mais de 20 anos ela aparece nas primeiras páginas dos jornais, nas telas dos cinemas e da televisão. Multidões se banqueteiam com as fofocas que a rodeiam sistematicamente a cada coisa que ela faz, a cada feito ou gesto, como uma auréola misteriosa e venerada. Dina não tem uma vida, tem diversas vidas, que se entrelaçam, uma mais inimaginável que a outra, permeadas de dramas, escândalos, alegrias e glamour. Seu carisma, sua obstinação em dançar, apesar das maledicências ditas pelos fundamentalistas, e sua louca liberdade fazem com que ela seja comentada além da fronteira do Oriente Médio. Porque hoje, na terra do Egito, terra originária da dança do ventre, Dina é a última das grandes a perpetuar a tradição.

Houve um tempo em que nenhum chefe de estado poderia visitar o Cairo sem que se organizasse para ele um espetáculo de dança oriental. Nessa época, as raqa’sas, as bailarinas, eram numerosas e disputavam a atenção, uma mais ardente do que a outra. Elas faziam parte do cotidiano dos egípcios. Pois foi suficiente apenas alguns anos, um estalo de dedos, para que o Egito mudasse. Em 1960, as mulheres andavam com os braços e cabeças descobertos. 50 anos mais tarde, o véu virou norma. Profundas mudanças geopolíticas, perceptíveis por todo Oriente Médio, transformaram a sociedade egípcia. Começando pelo choque do petróleo que, no fim dos anos 70, atraíram, como um ímã, milhares de trabalhadores egípcios para a Arábia Saudita e os países do Golfo. Esses expatriados, ao retornar ao país, anos mais tarde, trouxeram com eles costumes religiosos mais rígidos, que não eram mais seguidos no Egito. E no meio desse povo, amante das artes e da música, começou a surgir uma nova faceta, bem mais pudica. A Infitah, a abertura econômica iniciada pelo presidente Anouar El-Sadate, também contribuiu para balançar o equilíbrio do país. Pouco a pouco, se desculpando seja por conta do moralismo, seja por conta da falta de dinheiro, os egípcios começaram a abandonar os rituais das bailarinas. Muitos casais, hoje em dia, se casam sem chamá-las, rompendo com a tradição e com as promessas de boa sorte, de baraka, trazidas pela sua presença na festa.

Dina, entretanto, decidiu ser a guardiã das tradições. Carregar o estandarte até onde o seu corpo aguentar, sem jamais fugir ante os golpes do destino, da maldade dos homens, ou da dureza da vida. Em nome de um princípio universal que ela tornou seu, obstinadamente. Uma palavra que ela repete sem parar: liberdade. El Horreya, como se diz em árabe. A mais bela palavra, diz ela, que uma língua pode ter.

Segundo Dina, dizem que a origem da dança do ventre remonta ao tempo dos faraós, mas também há quem diga que essa dança veio junto com um povo originário das montanhas do norte da Índia, que se estabeleceu no Egito há mil anos. Os ciganos (gawasi).
"Nós a praticamos de pés descalços, para captar as energias da terra, e dizem que ela imita as dores do parto para garantir fertilidade."
  •  Rotina de uma bailarina no Egito
Dina descreve no livro uma noite tranquila, onde ela tem dois casamentos e um show num hotel marcados. As bailarinas egípcias, ou mesmo as estrangeiras que trabalham no Egito faziam até cinco ou seis shows por noite, numa rotina estafante que ia das 10 horas da noite até às 5 da manhã, sem contar o período de treino diário. Cada show durava mais de uma hora, alguns podiam durar até 3 horas como os da Fifi Abdou e da Nagwa Fouad. 
"Na entrada luxuosa do hotel eu apresso o passo. Não tenho tempo para olhar os buquês de flores magníficas. Eu conheço de cor o caminho. O elevador que leva aos salões de recepção, aos corredores estreitos que atravessam as salas de serviço. Eu cruzo com garçons, atarefados, com suas bandejas equilibradas, com recepcionistas, com os chefes de equipe. Nós somos parecidos, trabalhamos juntos para oferecer aos outros um sonho, um sonho luxuoso, uma fantasia de mil e uma noites.

A festa já está no seu auge. Sobre as mesas ricamente decoradas com lírios brancos,os pratos transbordam de comida. Os homens, bem vestidos, fumam seus cigarros. As mulheres rivalizam em elegância - vestidos de noite brilhantes, diamantes. A maioria usa um véu combinando. Dependurada no alto de uma grua, uma câmera se fixa na pista de dança, onde um grupo de jovens se requebra ao som da última música da Shakira.
- Madame Dina, ya set el kol (ó dama das damas), sua presença nos ilumina! diz timidamente um empregado. Ao seu lado, uma das suas colegas, ruborizada, saca o seu telefone celular do bolso para me fotografar. Pausa, sorriso, pose, clic-clac. Eu parto.
Dez vezes, até a pequena sala que me serve de camarim, eu vou parar. O tempo é curto. Entretanto, essa noite a minha agenda está razoável: dois casamentos, em hotéis diferentes, depois meu espetáculo semanal na casa noturna do Semiramis. Escuto ao longe o barulho da festa, a música, que me chama como um amante. Eu parto, corro pelo corredor. E entro sob os aplausos e os fiufius de admiração. Eu não vejo ninguém. Estou dentro da música. Não penso em mais nada. Estou num estado alterado de consciência.
A primeira parte acaba, e enquanto os músicos começam uma nova melodia, eu vou procurar a noiva, a felicito, a pego pela mão e a levo comigo até a pista. Ela não oferece nenhuma resistência, e sorri para mim, radiante em seu vestido branco, ela ondula ao meu lado e o seu marido aplaude. Tudo em torno da pista se ilumina, a família e os amigos se aproximam, formando um círculo. Escuto os zaghrouta, as risadas. Eu os sinto receptivos, felizes.
Tudo vai bem.
Uma menininha se aproxima. Ela está com um vestidinho branco, rendado, com presilhas de marfim nos cabelos cacheados. Ela é minúscula, 4 ou 5 anos. A orquestra continua, a música é ensurdecedora, e ela me olha, fascinada. Concentrada em meus movimentos, eu mal a vejo, somente por alguns instantes, mas os seus olhos me tocam. Ela se balança. E começa a dançar, meio sem jeito, mas já no ritmo.
Nós somos feitos para dançar.
Onde está o mal?"

  • Como a sociedade vê a bailarina – ibn el raqa’sa! 
Mas a bailarina é muito mal vista na sociedade egípcia, a expressão em árabe “ibn el raqa’sa” (filho de bailarina) é carregada de desprezo, o nosso equivalente a "filho da puta". Dizem que as bailarinas são devoradoras de homens, destruidoras de lares e prostitutas. Elas são o mal, o pecado incarnado. Só porque elas dançam.
"Tudo isso porque nós dançamos, porque usamos o nosso corpo. Porque amamos a música, porque a dança é mais forte que tudo, e também porque nós mostramos como é a mulher em toda a sua liberdade, verdade e sedução."
  • Os extremistas - Ramadã  
Antigamente as mulheres andavam sem véu na rua e eram respeitadas. Dina se ressente. Segundo ela, os extremistas não se ocupam mais de religião, mas de ostentação, querendo quebrar os espíritos e acorrentar as almas. Para eles a dança é haram, proibido, pecado.

No Ramadã é comum que pessoas ricas e grandes empresas financiem grandes banquetes para os necessitados, mas Dina não pode fazer isso. Ela prefere ajudar pessoalmente aqueles que precisam à sua volta, porque dizem que não se deve comer da mesa de uma bailarina, porque o seu dinheiro é sujo, é pecado.
"Por longas horas eu li o Corão. O que eu acho que é haram, pecado, é roubar, usurpar os bens dos outros. Não ganhar o seu dinheiro com o seu esforço, com o suor do seu rosto. Mas eu acredito ainda mais que  é haram, é julgar os outros. Quem somos nós para julgar os outros? Somente Allah pode julgar.
Dançar é um dom de Deus."
"A liberdade custa caro. Minha vida é uma guerra, todo dia recomeçada."
  • Dina Talaat


Dina Talaat nasceu em 12 de abril de 1964 (ela é ariana), em Roma, na Itália, seus pais eram egípcios. Seu pai trabalhava como correspondente do Middle East News Agency. Sua mãe trabalhava numa agência de imprensa italiana (mas segundo a Wikipedia ela trabalhou como secretária do embaixador indiano em Roma). Ela tem uma irmã dois anos mais velha chamada Rita, que segundo a Wikipedia, foi cantora.

Dina viveu em Roma até os 5 anos (1969), quando seus pais voltaram para o Cairo, e seu pai se instalou em Agouza (bairro do Cairo), próximo do Nilo. Dina lembra muito pouco dessa época, sabe apenas que era muito feliz.

  • As origens da sua família
Seu avô por parte de pai é um homem sério, exceto aos domingos, quando apostava em corridas de cavalo. Ele é de Dishna, um povoado grande perto de Qena, na região chamada Saïd, no Alto Egito (fica no sul do país). Essa é uma região rural, cheia de tradições fortes e muito conservadora. Até hoje o thar, código de honra, é seguido e se lê nos jornais locais histórias de vendetas.
Sua mãe, Zeinab, também vem do Saïd, mas de Minya, uma cidade maior, que é chamada de Noiva do Alto Egito. Seus habitantes são famosos por sua beleza e boa educação, e são considerados realeza, porque dizem que foi lá que nasceu Quéops, o faraó que construiu a maior das 3 pirâmides.




  •  A volta ao Cairo
A família volta ao Cairo quando Dina tem 5 anos, e vão morar no bairro de Agouza, perto do Nilo. Nessa época, 1969, as mulheres andavam de cabeça descoberta nas ruas, usando vestidos que deixavam pernas e braços à mostra, e usavam lindos penteados. Somente as mais velhas usavam véu. E as camponesas usavam seus trajes tradicionais. A sociedade era misturada, tolerante e mesmo assim, religiosa.

  • A morte de sua mãe e o segundo casamento do seu pai

Pouco tempo depois de voltar ao Egito, Dina fica sabendo que sua mãe morreu. Logo depois seu pai se casa novamente e tem mais 2 filhas. Dina sente muito a falta da sua mãe e sofre.

Sua irmã, Rita, é tudo pra ela, se fazendo de irmã, mãe, melhor amiga e confidente.

"Felizmente a Rita está comigo. Ela se faz de irmã, mãe, melhor amiga e confidente. Ela é mais sábia do que eu, menos rebelde, sabe acalmar minha raiva e suavizar minha vida."
  • Sua escola – sua primeira aula de dança
Em 1973, aos 9 anos, Dina muda de escola com a irmã mais velha. Elas deixam de frequentar um colégio franciscano onde aprendiam italiano e francês, e passam a estudar numa escola de moças anglo-árabe. Nessa nova escola, além do ensino clássico, elas podem fazer outras atividades, como teatro, canto, costura, cozinha e dança.
 "Era um curso de danças folclóricas das províncias egípcias. Meu pai me inscreveu sem nem imaginar que isso vai virar a minha vida de cabeça para baixo. Ou, mais exatamente, que eu vou finalmente achar sentido na minha vida. Porque, desde o primeiro minuto de aula, eu percebo que nada mais seria como antes. Eu escuto a música e a sinto vibrar até a ponta dos meus dedos, eu a vivo!
Toda manhã eu saio de casa feliz. Apenas alguns metros nos separam da escola, mas eu faço esse caminho todos os dias dançando.
Tenho dificuldade em me concentrar nas outras aulas, eu só penso numa coisa: a próxima aula de dança."
Nesse curso de escola Dina aprende diversas danças folclóricas e o seu primeiro espetáculo é de uma dança fallahi, onde as mulheres vão pegar água. A coreografia prevê que uma das alunas será solista, e claro, depois de muito se dedicar, Dina consegue o papel que tanto almejava.

"É o dia mais lindo da minha vida! Como estou feliz! Eu sei o que sou! Sei o que vou ser toda a minha vida! Bailarina, bailarina, eu fui feita para dançar!"


Nessa época sua família aceita a sua escolha e o seu pai a matricula na companhia de dança de Ahmad Fouad Abdallah, uma famosa escola de arte para crianças entre 10 e 16 anos, onde diversos atores conhecidos se formaram. Ela ensaia até 3 vezes por semana, no clube da juventude. Ela aprende canto, balé e dança folclórica. É nessa escola que Dina adquire o gosto pela disciplina e pelo treino árduo.
No mesmo local uma companhia profissional de folclore também faz os seus ensaios e ela é aceita entre os bailarinos profissionais em 1976, aos 12 anos.

"Nessa época ninguém ligava que nós dançássemos. Ao contrário! Os egípcios, por natureza, são alegres e amam as artes, a dança, o canto, os risos. Nós somos como os brasileiros. Como eles que nascem com o samba no pé, nós temos essa alegria e esse ritmo entranhados no mais profundo do nosso ser. É nossa natureza. Nós somos feitos disso. Nessa época ninguém brigaria com uma criança por ela estar dançando."
  • Brigas com o seu pai

As brigas com o seu pai são frequentes durante a sua adolescência, Dina é considerada rebelde. E um dia, numa briga, ela consegue os contatos da sua avó materna. Desde que o seu pai tinha se casado novamente, Dina e a irmã, Rita, não viam a família da mãe. Mas nesse dia ela telefona para a avó, querendo contar tudo o que acontece com ela e chorar suas mágoas. Para sua surpresa a avó diz que a mãe ainda está viva.

Ela explica que quando a família voltou de Roma, Zeinab pediu o divórcio, o que era chocante e impensável nos anos 70 para uma mulher. Como as duas famílias eram muito patriarcais, ao pedir o divórcio ela foi obrigada a aceitar nunca mais ver as filhas, além de abrir mão de todos os seus bens (do dote que recebeu ao casar). Para acalmar as crianças, foi dito a elas que a mãe tinha falecido, e toda vez que ela tentava falar com as filhas lhe era dito que as mesmas não queriam falar com ela.
Como uma mulher sozinha não pode viver no Egito, logo depois ela se casou novamente. Seu novo marido arranjou um emprego no Qatar e ela não teve opção, teve de partir com ele.


  • O reencontro

Apesar de não lembrar mais do rosto da mãe, Dina marca de reencontrá-la e as duas choram de alegria num emocionante reencontro.
"Hoje você vive comigo. Você não me deixa mais. Você está ao meu lado quando a sorte me dá as costas, você é meu porto seguro quando me atacam, você é, como Ali, meu sol, minha vida."